A visão de uma criança não nasce completamente desenvolvida. Durante os primeiros anos de vida, os olhos e o cérebro vão aprendendo a trabalhar em conjunto e diferentes capacidades visuais vão-se desenvolvendo progressivamente.
Este processo é particularmente importante durante a infância. Se existir uma alteração que faça com que um dos olhos veja significativamente pior, que os olhos não estejam devidamente alinhados ou que impeça uma imagem nítida de chegar ao cérebro, o desenvolvimento da visão pode ser afetado.
O desafio é que uma criança nem sempre percebe ou consegue explicar que não está a ver bem. Para ela, a forma como vê pode simplesmente parecer normal.
Por isso, conhecer alguns sinais e avaliar a visão durante o crescimento pode ajudar a identificar precocemente situações que mereçam atenção.
Como se desenvolve a visão de uma criança?
O desenvolvimento visual começa desde o nascimento e ocorre progressivamente ao longo dos primeiros anos de vida.
Nos primeiros meses, o bebé começa a melhorar a capacidade de:
- fixar o olhar;
- acompanhar objetos em movimento;
- reconhecer rostos;
- coordenar os movimentos dos dois olhos;
- relacionar aquilo que vê com os movimentos das mãos e do corpo.
À medida que cresce, vão-se desenvolvendo outras capacidades importantes, como a perceção de profundidade, a coordenação olho-mão, a focagem e a utilização conjunta dos dois olhos.
Estas capacidades não aparecem todas ao mesmo tempo nem evoluem exatamente da mesma forma em todas as crianças.
Mais importante do que comparar rigidamente uma criança com uma tabela de idades é estar atento a alterações persistentes ou comportamentos visuais que pareçam diferentes do habitual.
Porque é tão importante a visão nos primeiros anos?
Durante a infância, o cérebro está a aprender a utilizar a informação que recebe de cada olho.
Se um dos olhos enviar uma imagem de qualidade significativamente inferior durante este período, o desenvolvimento da visão desse olho pode ficar comprometido.
Uma das situações associadas a este processo é a ambliopia, frequentemente conhecida como “olho preguiçoso”. Pode desenvolver-se, por exemplo, quando existe uma diferença importante de graduação entre os olhos, estrabismo ou outra situação que interfira com a imagem recebida por um dos olhos.
A criança pode não se queixar porque utiliza preferencialmente o olho que vê melhor.
É precisamente por isso que a ausência de queixas não significa necessariamente que a visão dos dois olhos esteja a desenvolver-se da mesma forma.
Que sinais podem justificar uma avaliação visual?
Existem alguns comportamentos que podem estar relacionados com dificuldades visuais e que merecem atenção quando são frequentes ou persistentes.
Entre eles encontram-se:
- aproximar-se muito dos livros, televisão ou ecrãs;
- semicerrar os olhos para ver ao longe;
- fechar ou tapar frequentemente um dos olhos;
- inclinar ou rodar a cabeça para olhar;
- esfregar os olhos com frequência;
- queixar-se de dores de cabeça ou cansaço visual;
- perder frequentemente o lugar durante a leitura;
- manifestar desconforto em tarefas visuais prolongadas;
- apresentar dificuldade em alternar o olhar entre o quadro e o caderno;
- um dos olhos parecer desviar-se para dentro, para fora, para cima ou para baixo.
Alguns destes comportamentos podem ter muitas outras explicações e não permitem concluir que existe um problema visual. Servem como sinais que justificam atenção, não como forma de diagnóstico.
É normal os olhos de um bebé parecerem desalinhados?
Nos primeiros meses de vida pode acontecer ocasionalmente que os olhos de um bebé pareçam não estar perfeitamente coordenados.
No entanto, um desvio constante de um dos olhos em qualquer idade deve ser avaliado. Se um desvio intermitente continuar para além dos primeiros meses de vida, também merece avaliação.
Um desvio ocular pode interferir com a forma como os dois olhos trabalham em conjunto e, durante a infância, pode estar associado ao desenvolvimento de ambliopia.
Se os pais tiverem dúvidas sobre o alinhamento dos olhos da criança, não é necessário esperar para perceber se “passa sozinho”.
Há sinais que exigem avaliação médica rápida?
Sim.
Alguns sinais não devem aguardar por uma avaliação visual de rotina.
É importante procurar avaliação médica rapidamente se observar, por exemplo:
- uma pupila que parece branca em vez de escura, especialmente quando o fenómeno se repete;
- um reflexo branco persistente em fotografias;
- aparecimento súbito de um desvio ocular;
- movimentos involuntários e persistentes dos olhos;
- uma pálpebra que cobre de forma significativa a pupila;
- dor ocular importante;
- alteração evidente e súbita do comportamento visual da criança.
Uma pupila branca — denominada leucocoria — pode ter diferentes causas, algumas potencialmente graves, e deve ser avaliada rapidamente por Oftalmologia.
A criança precisa de saber ler para avaliar a visão?
Não.
A visão pode ser avaliada mesmo em crianças que ainda não sabem ler e, em determinadas situações, em bebés.
Os procedimentos são adaptados à idade e à capacidade de resposta. Em crianças mais pequenas podem ser utilizados símbolos, imagens, objetos ou métodos que não dependem de uma resposta verbal semelhante à de um adulto.
Isto é importante porque não existe necessidade de esperar pela entrada na escola para começar a prestar atenção à visão.
Uma criança pode ter um problema visual sem apresentar sintomas?
Sim.
Isto é particularmente relevante quando apenas um dos olhos apresenta uma redução da visão.
Se o outro olho vê bem, a criança pode funcionar normalmente no dia a dia e não perceber que existe uma diferença.
A ambliopia é um bom exemplo: frequentemente não existem sintomas óbvios para os pais ou para a própria criança, podendo a alteração ser identificada apenas durante uma avaliação.
É uma das razões pelas quais a deteção precoce tem particular importância durante a infância.
A própria Direção-Geral da Saúde inclui o rastreio e a deteção precoce entre as estratégias do Programa Nacional para a Saúde da Visão.
A visão pode influenciar as tarefas escolares?
A visão é utilizada intensamente durante muitas atividades escolares.
Ler, escrever, copiar informação do quadro, utilizar um computador e alternar entre diferentes distâncias exigem diferentes capacidades visuais.
Quando existe uma dificuldade visual, algumas destas tarefas podem tornar-se mais exigentes ou desconfortáveis.
No entanto, é importante não fazer uma associação demasiado simples:
dificuldades escolares não significam necessariamente dificuldades visuais.
Problemas de aprendizagem, atenção ou leitura podem ter muitas causas e uma avaliação visual não substitui a avaliação por outros profissionais quando esta é necessária.
O papel da avaliação visual é perceber se existe alguma componente da função visual que possa estar a interferir com o conforto ou desempenho das tarefas visuais.
E a miopia durante a infância?
A miopia é uma das alterações visuais que merece acompanhamento particular durante a infância e adolescência.
Pode fazer com que a criança veja bem ao perto, mas tenha dificuldade em reconhecer detalhes ao longe, ler o quadro ou identificar objetos à distância.
Como a miopia pode progredir durante os anos de crescimento, não devemos olhar apenas para a graduação necessária naquele momento, mas também acompanhar a sua evolução.
Qual é o papel da Optometria no desenvolvimento visual?
A consulta de Optometria infantil é adaptada à idade, aos sintomas e à capacidade de resposta da criança.
Podem ser avaliados diferentes aspetos da função visual, nomeadamente:
- acuidade visual de cada olho;
- necessidade de graduação;
- capacidade de focagem;
- alinhamento e coordenação entre os olhos;
- visão binocular;
- resposta às diferentes exigências visuais.
O objetivo é perceber como a criança está a utilizar a visão e se existem alterações que justifiquem acompanhamento, correção visual ou investigação adicional.
Sempre que os resultados ou os sinais observados indiquem necessidade de avaliação médica, é recomendada referenciação para Oftalmologia.
Perguntas frequentes sobre o desenvolvimento visual da criança
Com que idade pode uma criança fazer uma avaliação visual?
Não existe necessidade de esperar que saiba ler. A avaliação pode ser adaptada à idade e à capacidade de resposta da criança, existindo métodos adequados mesmo para crianças muito pequenas.
O meu filho nunca se queixa. Isso significa que vê bem?
Não necessariamente. As crianças podem não perceber que veem de forma diferente e, quando apenas um dos olhos apresenta uma dificuldade, o outro pode compensar no dia a dia.
Aproximar-se muito da televisão significa que tem miopia?
Não necessariamente. Pode ser um comportamento sem significado clínico ou estar associado a diferentes fatores. Se for frequente e existirem outros sinais, faz sentido avaliar a visão.
Um olho desviado numa criança é normal?
Um desvio ocasional pode ocorrer nos primeiros meses de vida. Um desvio constante, ou um desvio que continua a surgir depois desse período inicial, deve ser avaliado.
Uma dificuldade de leitura significa que existe um problema visual?
Não. A leitura envolve processos visuais, linguísticos, cognitivos e de aprendizagem. Uma dificuldade visual pode tornar determinadas tarefas menos confortáveis, mas não explica por si só uma dificuldade de aprendizagem.
Se a criança vê bem ao longe, a visão está necessariamente normal?
Não. Ver letras pequenas ao longe é apenas uma parte da função visual. Também podem ser relevantes a graduação, a focagem, a coordenação entre os olhos e outras capacidades utilizadas durante as tarefas do dia a dia.
Conteúdo revisto pela equipa de Optometria da Central Ópticas
Última revisão: setembro de 2026
Este artigo tem carácter informativo e não substitui uma avaliação individual. Os comportamentos descritos podem ter diferentes causas e não devem ser utilizados isoladamente para determinar a existência de uma alteração visual.
A Central Ópticas encontra-se registada na Entidade Reguladora da Saúde (ERS).
Fontes de referência
- Direção-Geral da Saúde — Programa Nacional para a Saúde da Visão
- National Eye Institute — Amblyopia (Lazy Eye)
- NHS — Eye tests for children
- NHS — Squint
- American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus — Leukocoria
- American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus — Amblyopia